No estádio,
Getúlio assinou criação do salário mínimo e da CLT, em 1943. Na ditadura de 64,
mensagens de 1º de maio à ‘família operária’; e, em 1981, atentado do Riocentro

O Estádio de
São Januário — o maior do Brasil até a construção do Pacaembu, em São Paulo, em
1940 — era o cenário para comemorações do Dia do Trabalho pelos presidentes
Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Durante a ditadura do Estado Novo
(1937-1945), Vargas reunia no dia 1º de maio dezenas de milhares de pessoas no
estádio, onde da tribuna fazia longos discursos. Foi lá que o líder da
Revolução de 30, que pôs fim a República Velha (implantada em 1889 após o
Império ruir), anunciou a criação do salário mínimo no país e a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT).
No próprio estádio do Vasco da Gama, Getúlio
assinou o decreto-lei criando o mínimo, em 1º de maio de 1940, que variava
entre 90 mil reis, no interior do Nordeste, e 240 mil reis, nas grandes
cidades. A remuneração deveria ser capaz de cobrir as necessidades mínimas de
uma família de quatro pessoas. No ano seguinte, na mesma data e no mesmo local,
o presidente assinou a criação da Justiça do Trabalho e, em 1943, foi a vez da
assinatura da CLT, incluindo os direitos trabalhistas na legislação brasileira.
Em plena
Segunda Guerra Mundial, Vargas, que havia chefiado o Governo Provisório (até
34) e depois se elegeu presidente pela Assembleia Nacional Constituinte
(1934-1937), costumava comandar no estádio do Vasco um “comício
cívico-militar-esportivo”, conforme reportagem do GLOBO na época. No Dia do
Trabalho de 1942, por exemplo, diante das arquibancadas superlotadas,
desfilaram operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) — recém-criada
pelo governo para incentivar a industrialização brasileira —, estudantes e até
soldados em tanques e bateria antiaérea.
Nos anos 50,
o presidente Juscelino Kubitschek também fez pronunciamentos no estádio,
inaugurado três décadas antes, em 21 de abril de 1927 (na época, era o maior
estádio da América do Sul). JK comparecia às comemorações do 1º de maio sempre
em companhia do ministro do Trabalho e de membros do seu gabinete militar. No
Dia do Trabalho de 1957, JK desfilou em carro aberto acompanhado por uma
multidão, dando uma volta na pista de atletismo do Vasco. Preocupado com os
efeitos da inflação no bolso do trabalhador, ele afirmou, em discurso, que
todos os esforços estavam sendo feitos no país para “impedir que a moeda
perdesse o seu poder aquisitivo”.
Durante a
ditadura militar (1964-1985), os presidentes também aproveitavam as
comemorações do 1º de maio para divulgar mensagens aos trabalhadores
brasileiros. No auge dos anos de chumbo e da repressão ao movimento sindical no
país, o presidente Médici afirmou, em sua mensagem de 1972, que o governo
lutava “pela dignificação dos que trabalham, pelo fortalecimento de um
sindicalismo autêntico e pelo crescente bem-estar da família operária”.
Depois da
assinatura da Lei da Anistia pelo presidente João Figueiredo em 1979, atentados
a bomba de grupos de extrema direita, contrários à lenta abertura política,
ocorreram em várias cidades do país. Em 1981, durante o show do 1º de maio,
houve o atentado do Riocentro. Enquanto 20 mil pessoas assistiam ao espetáculo,
promovido pelo Centro Brasil Democrático (Cebrade) para comemorar o Dia do
Trabalho e protestar contra a ditadura, no estacionamento uma bomba explodiu no
interior de um Puma, matando o sargento do Exército Guilherme Pereira do
Rosário e ferindo o capitão Wilson Luís Chaves Machado, que servia no DOI-CODI.
Criado em
1889, em Paris, o Dia do Trabalho homenageia operários que protestaram em Chicago,
três anos antes, por melhores condições de trabalho. As manifestações foram
duramente reprimidas pela polícia e resultaram em prisões, feridos e até
mortes.