
BEIT JALA, Cisjordânia - No Natal, na terra onde segundo a tradição nasceu
Jesus, cresce a indignação pela retomada das obras do polêmico muro que divide
uma região sagrada para os cristãos. Com o aval da Justiça israelense, o
Ministério da Defesa enviou maquinaria pesada para derrubar oliveiras
centenárias e continuar a erguer a separação de concreto nas terras entre
Jerusalém e Belém, na Cisjordânia. O governo israelense alega que o motivo é
segurança. Mas o muro no Vale de Cremisan divide o pequeno município palestino
de Beit Jala, separa igrejas e mosteiros, surpreende turistas e deixa
agricultores desolados ao eliminar seu modo de vida.
Interrompida
várias vezes ao longo da última década por ações na Justiça, a construção foi
retomada pelo Ministério da Defesa de Israel após receber autorização de sua
Suprema Corte.
O Vale de
Cremisan fica na região rural de Belém e é considerado uma das mais belas
paisagens da Terra Santa. Seus moradores, quase todos cristãos, vivem do
cultivo de oliveiras e vinhedos.
O muro
divide o vale em dois. O mosteiro e o Convento de Cremisan, salesiano, ficariam
na parte palestina. Mas algumas das famílias palestinas de Beit Jala veriam
suas terras ficarem do lado israelense da muralha de concreto.
O ministério
diz que o muro é necessário para a segurança:
— Ele está
sendo construído somente dentro de Israel, de Jerusalém — afirma Arielle Hefez,
a porta-voz do Ministério da Defesa.
De acordo
com ela, o ministério cumpre a decisão da Suprema Corte. A porta-voz garante
que o muro de concreto não vai alterar a vida dos moradores e de visitantes.
— Ele não
vai impedir o livre acesso às terras e aos mosteiros. Não são verdadeiras as
afirmações contrárias — diz ela.
A construção
havia sido interrompida na Páscoa, por uma ação na Justiça, mas foi retomada
recentemente. O prefeito de Beit Jala, Nicolas Khamis, afirma que as 58
famílias cristãs do Vale de Cremisan estão desoladas.
— Receber
essa notícia perto do Natal foi uma desgraça para nós. Escavadoras israelenses
já chegaram e arrancaram nossas oliveiras — lamenta o prefeito.
Em abril, o
Supremo havia aceitado uma ação contra a construção e pediu então às
autoridades israelenses para “considerarem outras opções". Mas, em agosto,
a corte resolveu aceitar as alegações do governo, para desespero dos locais.
Polêmica. A
parte do muro que se ergue sobre o Vale de Cremisan, nas cercanias da cidade de
Belém, na Cisjordânia Cristãos podem ir embora.

O muro
ameaça acentuar o êxodo de cristãos de Belém, provocado por dificuldades
políticas e econômicas. Dos cinco milhões de palestinos, apenas cerca de 50 mil
são cristãos. Khamis já perdeu a esperança:
— O problema
é que nem consigo conversar com os prefeitos dos municípios vizinhos, como
Jerusalém. Não há diálogo. As normas vêm prontas de Israel para os palestinos.
Ele diz que
a verdadeira razão do muro é promover uma ligação segura entre os assentamentos
israelenses de Gilo e Har Gilo.
— Estes
assentamentos são ilegais, segundo as leis internacionais — destaca o prefeito.
Ele
acrescenta que o muro fica no território delimitado como sendo palestino:
— A
explicação de Israel é que pedras poderão ser arremessadas do território
palestino por militantes em direção aos assentamentos israelenses. Eu, como
empresário profissional, fora da minha posição de prefeito, tenho um bom
relacionamento com empresários israelenses. Eles também discordam em relação à
construção do muro. O problema é que não podemos fazer nada para mudar a lei.
O padre
Jamal Kader é reitor do Seminário de Jerusalém, que atende a toda a Terra
Santa. Ele só vê problemas à frente, à medida que a obra avança:
— Esse muro
ocupa terras de Beit Jala e vai circundar os arredores de Belém. Será, na
verdade, uma prisão, uma grande prisão. Privará as pessoas das suas terras e
bloqueará o acesso a áreas verdes. Famílias perderão os terrenos de onde tiram
seu sustento.
Kader não
desistiu de lutar contra a obra.
— Vamos
voltar a recorrer à Suprema Corte israelense. Ressaltar que só vai agravar os
problemas políticos.
Ele diz que
os cristãos palestinos também têm mobilizado bispos de vários países, como o
Brasil, para aumentar a pressão internacional contra a construção:
— Este é um
grande crime contra a população da cidade de Jesus, Belém.
O que pode
ser feito de Beit Jala? -

Até agora,
porém, protestos de Igrejas cristãs estrangeiras têm sido ignorados por Israel.
Conferências Nacionais de Bispos de diversos países e comunidades cristãs, como
a Sociedade de Santo Ivo, apelaram contra a construção do muro. Até o Papa
Francisco pediu ao premier israelense, Benjamin Netanyahu, para deter a obra.
Mas ela continua.
Fatma
Mansour, de 82 anos, que nasceu e passou toda a vida em Belém, não se conforma
com o fato de que as oliveiras, símbolos da região, sejam destruídas.
— Onde havia
oliveiras, há lama. O impacto não é só para a História e a religião, mas é
também ecológico, porque esta região é a mais verde do distrito de Belém. O
muro é considerado por nós, cristãos da Terra Santa, uma tragédia para a
comunidade cristã do mundo inteiro — frisa ela.
O advogado
que entrou com uma nova ação na Justiça, Raffoul Rofa, da Sociedade de Santo
Ivo e do Centro Católico para os Direitos Humanos, acredita que mais cristãos
irão embora.
— A maioria
tem parentes em outros países e planeja sair um dia. Há alguns anos, tínhamos
20% da população da Cisjordânia formada por cristãos. Hoje, somos um pouco mais
de 1% — lamenta Rofa.
Missas de
protesto
As terras do
vale pertencem a 58 famílias cristãs e à Igreja Católica. Missas semanais ao ar
livre são celebradas no lugar onde avança o muro. E dão prosseguimento à série
de protestos que a comunidade cristã tem realizado nos últimos anos.
Na semana do
Natal, a notícia de que um muro partirá o vale surpreendeu turistas.
— É uma
história que os cristãos não queriam ter que ouvir em pleno Natal ou em
qualquer época do ano — lamenta a turista colombiana Alexis Maria Vélez, que é
evangélica.